O bar do design.
Designers esnobes. Casio Vintage. Comunidade. Design como símbolo. Marca como identidade.
O bar do design sempre ficava meio afastado da área dos bares mais lotados e famosos da faculdade.
No começo, eu pensava que era porque o curso de design era menor do que administração, direito ou economia. Mas depois percebi que existia, de fato, uma segmentação social ali.
A galera do design é muito diferente das outras galeras.
Nós somos, em maior parte, introspectivos, temos certa dificuldade em lidar com situações sociais, vemos o mundo por outro ângulo, usamos roupas diferentes e, de certa forma, somos esnobes.
Sim, somos esnobes.
Pelo simples fato de termos “bom gosto”. Não de forma subjetiva, mas por quantidade de repertório e fundamento teórico em relação a áreas que as outras galeras não têm.
E vice-versa, claro. Antes que alguém fique ofendido.
Eu me lembro exatamente quando comecei a notar a epidemia social dos criativos usando Casio Vintage. Aqueles relógios metálicos, dourados ou prateados, que remetiam a um passado não tão distante, elegante e funcional.
A galera do design usava. A galera do skate também. A galera do rap também.
Depois, com o passar dos anos, fui vendo o Casio Vintage nas agências, subindo dos estagiários para os diretores de criação, até chegar nos executivos e sócios.
Hoje, até empreendedor bilionário aparece usando. E ainda mete o modelo com teclado e calculadora.
Semana passada estive no escritório da Casio, em São Paulo. Conversamos sobre essas epidemias sociais das quais a marca faz parte.
E foi muito interessante observar como a preocupação com a padronização do produto parece ser central.
Sim, a marca quer se comunicar e se conectar com seu público. Inclusive, tem feito isso de formas bastante criativas, com embaixadores e colaborações.
Mas, ainda assim, o produto é praticamente o mesmo de 15 anos atrás.
A defesa. O ideal. A história.
Tudo se mantém ali, como sempre foi.
Meu sogro, 59 anos, não entende por que as gerações mais recentes veem valor nesses modelos. Afinal, ele viu esses relógios serem lançados em primeira mão. Ele estava lá.
A percepção dele não inclui o “acesso ao passado elegante e mais funcional”.
Para ele, era só o presente. Para nós, virou símbolo.
Às vezes eu aprendo mais sobre branding observando, conversando e ouvindo do que lendo livros ou estudando cases.
Porque o branding acontece na rua. Nos botecos. Nos bares de faculdade.
Branding é uma disciplina antropológica.
São pessoas tentando viver melhor e, por isso, buscando se conectar a grupos.
E esses grupos precisam de símbolos.
Precisam de objetos que digam alguma coisa antes mesmo de alguém abrir a boca.
Precisam de sinais que ajudem as pessoas a se reconhecerem no mundo.
Design é sobre dar forma a esses símbolos.
Branding é sobre dar identidade para as pessoas.
Ótima semana,
LONA


